A Cliente
Eva, a heroína trágica do livro de gêneses. A primeira a sujar os pés na lama do Planeta Terra.
Protótipo de Mulher, desprovida de qualquer referência feminina. Eva não tinha mãe.
Eva, constituída de barro e livre arbítrio.
Expulsa do paraíso por sua atitude calamitosa.
De tão inocente, teria sido enganada?
De tão indecente, teria sido mal intencionada?
De tão imprudente, teria sido manipulada?
Eva, pressentindo a conseqüência do seu ato, se escondeu. Percebeu que estava nua, despida de si mesma.
Apontar a serpente não amenizou sua culpa, e não lhe cabia o Direito de perorar a seu próprio favor.
Tomada de vergonha e resignação, sua alma experimentava agora a aflição dos que caminham em direção ao exílio, à perda, ao castigo.
Eis que uma voz, comparada ao som de mil trovões, proferiu a sentença que marcaria sua descendência: “...O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”.
Sete anos se passaram. Eva está assentada à beira de um rio, de onde podia avistar Adão, na margem oposta, colhendo frutos.
A imagem lhe remete a dolorosa lembrança de seu passado.
Para além do pensamento recorrente, abstraindo agora sobre o pecado original, neste momento uma súbita lucidez invadiu seu subconsciente. Esta ação orgânica ativou em sua essência o sexto sentido - o aguçar das percepções; e ela pode então analisar de forma consciente, perpassando a influência de Adão sobre sua própria existência, desde sua criação até a ruína de sua identidade.
Ela pode refletir que:
Do homem foi tirada a matéria-prima que a compôs, portanto Eva mantém uma relação de dependência, tanto física quanto emocional.
Sobre o homem, diferindo anatomicamente da mulher por ser mais forte e resistente, Eva criou a expectativa de que naturalmente seria protegida por ele.
Visto o homem, como criação primeira, Eva teve nele o referencial de sabedoria, de aconselhamento, de direcionamento.
Lembrou-se que no momento em que foi tentada pela maldita serpente, Adão não estava ao seu lado.
Quando confundida e enganada, oferecendo o fruto ao parceiro, o mesmo compartilhou de seu erro, mordendo a maçã.
Sendo descoberto o erro, o homem evidenciou como culpada a companheira que a ele foi dada.
A primeira sentença foi imposta a Eva. “...O teu desejo será para o teu marido, e ele te dominará”.
Mas Deus, em sua misericórdia, repensou seu momento de ira contra a Mulher, aquela que foi criada para gerar os filhos da humanidade, e compensou-a, potencializando todas as suas qualidades a fim de ajudá-la em sua evolução como pessoa, para que não dependesse exclusivamente do homem para se sentir completa.
Após muitas gerações, entre decepções e aprendizados, as mulheres desenvolveram a capacidade de conviver com os homens não através de uma relação de dominação, mas de harmonia e de complementação, que só são possíveis graças ao dom desenvolvido por elas.
E a maior de todas as constatações feitas por Eva neste fim de tarde foi que guardar mágoas do SEU HOMEM é como ruminar uma antiga maçã, que se mastiga, se engole e mastiga novamente, amargando a relação e conseqüentemente a vida.
Mª Marcelli Oliveira
Mulher, você também erra, eu posso afirmar com propriedade de causa. Porém é teu o dom e a missão de perdoar, consolar, pacificar, consertar, orientar e principalmente amar, mas amar para além do que se é capaz.
Eva, a cliente absolvida.